19.4.17

Ignorância assassina

Nota antes do apedrejamento: o meu texto não é dirigido aos pais da adolescente que infelizmente deu notícia (o que explico mas nem todos sabem ler). É dirigido aos grupos antivacinas em geral. Escrevi no post "partindo do princípio que a notícia esta correcta". Parecia que adivinhava, aparentemente a adolescente não podia ser vacinada, mas no limite ela veio a falecer porque alguém que podia ser vacinado não o foi. Se quem puder ser vacinado receber a vacinação prevista, os que não podem ser vacinados estarão mais a salvo. Não completamente, mas mais a salvo. Sim, o texto é bruto. É e propósito, para mexer com as pessoas.


Talvez possa parecer insensível da minha parte, pois a rapariga de 17 anos contagiada com sarampo ainda hoje morreu e a sua mãe antivacinas estará a passar por um desgosto inenarrável, mas quando sei destes casos fatais (que cada vez mais vezes dão notícia nos últimos anos e partindo do princípio que esta notícia está correcta), sinto que existiria em mim um macabro e obsceno prazer em perguntar aos pais destes filhos acabados de morrer: «então? Se pudesses voltar atrás no tempo, vacinavas ou não? Se ontem te dissessem "se não vacinares hoje, amanhã está morta", vacinavas ou não?». Não há nada como um choque de realidade cruel para fazer repensar as opções.

Caramba, não se morria de sarampo em Portugal há 23 anos. Era preciso uma criatura antivacinas impor a sua ignorância para inverter esta tendência de erradicação da doença, fazer custar uma vida e conseguir uma proeza destas.

Assumo, odeio pessoas antivacinas. Confesso que me dão calores nas costas e vontade de lhes ir à tromba. Há liberdades que não consigo respeitar e esta é uma delas. Nunca conheci uma pessoa capaz de não respeitar o plano nacional de vacinação, mas quase existe em mim um desejo de encontrar uma pessoa destas num jantar, numa festa, ouvi-los pavonearem-se na sua ignorância para poder publicamente de chamá-los de estúpidos.

Uma das coisas que mais me irrita neste grupo de ignorantes é a forma como se penduram nos outros. Aquele argumento de que os filhos nunca ficaram doentes ou que não conhecem nenhuma criança que tenha adquirido esta ou aquela doença, isso acontece porque a maior parte da população está vacinada. Ou seja, os filhos destes ignorantes muitas vezes estão a salvo porque a minha filha está vacinada e, de ignorantes que são, não se lembram disso.

Historicamente, façamos uma viagem no tempo: a peste negra. Aquilo era cada tiro, cada melro. Covas a serem preenchidas, umas atrás das outras. Se em Portugal as doenças estivessem sujeitas a enorme taxa de contágio e de mortalidade como neste tempo (em que não havia vacinas), estas criaturas optariam por vacinar? Eu acredito profundamente que o à vontade com que não o fazem está ligado (talvez no subconsciente) ao facto de a maioria estar vacinada. E isso é de um egoísmo e de uma ousadia para a qual me faltam as palavras.

Se a teoria de que "as vacinas fazem mal" já é irritante, a teoria da conspiração contra as farmacêuticas por serem máquinas de fazerem dinheiro, entra no domínio do "eu vou-te à tromba". A mim não me interessa se uma vacina custa 100€ e dou a ganhar dinheiro a um gigante da farmácia, se isso salvar a vida da minha filha. Aliás, peguem nesses 100€, façam investigação e encontrem mais curas para doenças ainda incuráveis, pois a última coisa que me incomoda é que alguém faça muito dinheiro. Não penso nisso.

A semana passada levei a herdeira ao médico que dedicou parte da consulta para falar de vacinas. Ele ainda não tinha começado a dar a informação do que havia e não havia, do que fazia parte e não fazia parte do plano de vacinação nacional e eu já pensava para mim mesma: "quero tudo". Perguntou-nos se a Carmencita ia para um infantário, quando respondi que ia ficar em casa pelo menos até aos dois anos o médico quase deu urros de contentamento e repetia: "isso é óptimo, isso é óptimo!".

Mas também não atribuo todas as culpas aos tontos "as vacinas fazem mal", é preciso que o Ministério da Saúde tenha capacidade de resposta. Quando estava grávida desunhei-me para encontrar a vacina da tosse convulsa. Não existia em lado nenhum! Era uma recomendação da minha médica obstetra e da Direcção Geral de Saúde (por serem cada vez mais os casos nos últimos meses) sugestão que acatei de imediato. A tosse convulsa num bebé recém-nascido pode facilmente matar. Mais impressionada fiquei quando a Catarina Beato, autora do blogue Dias de uma Princesa, teve de ver a filha de meses internada no hospital exactamente por tosse convulsa. Aquela coisa de pensar que só acontece aos outros, afinal viu-se próxima de todos nós.

Estive em lista de espera para a vacina da tosse convulsa em contra-relógio por apenas poder recebê-la até às 36 semanas de gravidez. Tinha o meu nome no Centro de Saúde e em cinco farmácias diferentes. De cada vez que passava por uma farmácia, encostava o carro (às vezes em segunda fila), entrava a correr e perguntava se tinham a vacina disponível. Estive perto de dois meses nisto quando num dia consegui a vacina ao tentar a minha sorte numa farmácia ao calhas. No dia seguinte, ironia do destino, o Centro de Saúde já tinha a vacina disponível para mim. Por essa altura tinha sido contactada por uma leitora também grávida e desesperada à procura da vacina. Combinámos numa bomba de gasolina, dei-lhe a vacina que tinha conseguido comprar e recebi a minha no Centro de Saúde.

Há dois dias uma amiga escreveu no facebook que tinha ido ao Centro de Saúde com a filha de seis meses para receber duas vacinas e saiu de lá só com uma. A enfermeira respondeu que não tinham, sugeriu que a mãe fosse consultando as notícias ou ligando, pois não havia previsão de chegada. Se existe um plano nacional de vacinação, ele deve ser cumprido. Vá, aceito que digam "não temos hoje, venha amanhã", mas é inaceitável que não exista sequer previsão e o tempo vá passando.

Morrer de sarampo em 2017 e num país ocidental é uma coisa absolutamente ridícula. E perdoem-me a dureza das minhas palavras: a culpa é dos pais que não vacinam os filhos. Com esta ideia brilhante de uns, pagam outros. Eu atribuo sem sombra de dúvida a culpa aos pais que optam pela não vacinação e morro de pena pelas vidas interrompidas e do sofrimento a que foram sujeitas as crianças que tão má sorte tiveram nos pais que lhes tocaram. Esta miúda morreu de uma cadeia longa de contágio porque houve quem não vacinasse.

No meu tempo quando ia para a escola tinha de mostrar o boletim de vacinas. O plano nacional de vacinação devia ser obrigatório, a rejeição devia ser punível por lei, e cada criança que não mostrasse um boletim de vacinas impecável e cumprido a rigor deveria ter a entrada na escola suspensa e a denúncia a uma entidade de saúde qualquer capaz de fazer o policiamento destes casos.

Estou-me nas tintas para os pais antivacinas. Não, não lhes dou liberdade de acreditarem no que entenderem quanto a esta matéria. A ignorância destes pais é o risco da minha filha e isso para mim não é negociável. Em alternativa podem ir viver para uma ilha, isolados do mundo num modo natura que tanto apreciam.

Despeço-me de todos os ignorantes antivacinas com votos de um bom funeral e um bom enterro para os vossos filhos, esperando que nunca se cruzem com as pessoas de quem gosto.












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17.4.17

Gravidez: a decisão de contar aos outros

Salvo excepções, geralmente quando uma mulher sabe que está grávida tem pouco mais de um ou dois meses de gestação. Infelizmente muita coisa pode acontecer, as 12 semanas marcam a passagem para um período de maior segurança, mas são muitas as gravidezes que ficam pelo caminho. Os abortos espontâneos no primeiro trimestre são mais comuns do que se imagina.

Por este motivo muitos casais hesitam: anunciar a boa nova a amigos e família ou guardar segredo até passar a “barreira de segurança”? Ou ainda, anunciar apenas às pessoas mais próximas?

Comigo foi muito simples: de teste de gravidez positivo na mão, ameacei logo o pai da criança. Nada como deixar bem claro e sem margem para enganos qual era a minha vontade (e quem manda é a grávida). Por ele, bem sei, corria-se imediatamente o mundo com a boa nova e eu tinha apenas um mês de gravidez. Mas para mim nem pensar, estava fora de questão, embora no meu caso nada tivesse a ver com receios de que algo pudesse correr mal. Na verdade, nunca me senti melindrada que alguma coisa pudesse correr mal, estive sempre confiante e com um espírito muito positivo, esses medos nunca ocuparam espaço na minha cabeça.

O meu problema eram as pessoas que, por melhores intenções que tenham, não conseguem aguentar. Dizem sempre a A ou a B “mas não digas nada que te contei e não contes que eles não querem que se saiba!”. E assim vai de boca em boca e todo o mundo sabe. Esqueçam, não há capacidade para segredos! Quando souber a primeira pessoa é muito provável que se alastre. São notícias boas, deixam as pessoas contentes (a maioria das vezes) e é mais forte do que elas, não conseguem guardar.

E qual é o problema de se saber? São os palpites e conselhos que se multiplicam que, acreditem em mim (até estou a revirar os olhos), é esgotante, desnecessário e sobretudo, muito, mas muito chato. As pessoas em geral ainda não compreenderam que se uma grávida quiser conselhos, ela pede. Se não pedir é porque não quer.

Além de querer poupar a minha paciência, quis viver esta fase a dois o máximo que pudesse esticar no tempo. A gravidez era nossa, o bebé era só nosso e de mais ninguém. Apenas a médica obstetra sabia. Aos três meses de gravidez andava na praia com a minha mãe e as minhas irmãs, nunca repararam em nada. Felizmente demorei a ter barriga o que me permitiu guardar o segredo por mais tempo.

Só aos quatro meses revelei a novidade, mais porque queria contar a algumas pessoas e começar a escrever sobre o assunto. Então, se era para contar a uns, mais valia espalhar a notícia, era certo que não ia ficar em segredo muito tempo, sobretudo quando a grávida era eu, coisa que ninguém no mundo conseguia acreditar que algum dia viesse a acontecer dado o meu gosto por crianças.

E claro, assim que se fez o anúncio ao mundo, logo brotaram listas do que tinha de fazer e o que tinha de tomar. Há um mundo de portugueses com espírito médico e receituário na mão prontos a ditar que vitaminas deve tomar uma grávida. E eu não tenho paciência, desculpem. Eu sei que a intenção é boa, mas as pessoas não colaboram.

A somar aos conselhos, surgiram chamadas e SMS de pessoas a quem não comunicámos a boa nova. Em menos de 24H a novidade já estava fora do país. Eu não digo que as pessoas não aguentam?


Crónica publicada na página Universo do Bebé by Continente, aqui.


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