30.3.16

Método parental que não me impressionou


Deixemo-nos de rodeios: eu não gosto de toda a gente. É verdade, não é nenhuma qualidade, não é uma rebeldia sem causa, mas acho impossível que se possa gostar de toda a gente. Podemos, isso sim, ser cordiais e educados com todos, goste-se ou não.

E isto de não gostar das pessoas é válido para qualquer um, até mesmo dentro da minha família, havendo com quem não fale há mais de 10 anos. Não há guerras, não há olhares, não há insultos, não há nada. Quando chego às festas cumprimento todos menos um, quando janto à mesa falo com todos menos um. Tudo na maior das tranquilidades: não penso nisso, não desejo nem mal nem bem, é assumir que não dá e vai para uma década que não se troca uma palavra. Nunca me arrependi, foi uma decisão acertada que nunca vai mudar.

No entanto, não significa isto que não falasse com a descendência, um primo, de quem gosto. Aqui o justo não paga pelo pecador, não misturo águas, cada um é como é e independente do pai ou da mãe que lhes calhou em sorte.

Na Páscoa, num almoço de família, falava com um primo sobre a depilação a laser. Maior de idade, vinte e poucos, não é o homem da fotografia, mas a vida deu-lhe muitos pêlos. E vejo que aquilo é tema que o chateia, que é um assunto em que pensa, que mói, para além de que no verão deve ser um incómodo.

Éramos três a um canto de uma sala, falávamos de pêlos, de como não faço depilação há 9 anos. Afirmava eu que se lhe incomoda, devia experimentar a Ultimate Laser. A ideia dele não era sequer ficar liso como um bebé, era tirar pêlos dos ombros, criar uma separação entre os pêlos do peito e a barba, coisas que imagino que incomodem qualquer homem. E por isso recomendei-lhe algumas sessões, explicando não iria ficar como uma mulher, mas iria sentir-se sem dúvida melhor.

Era uma conversa trivial, do meu lado que tenho a experiência era meramente informativa. Do outro lado, perguntas normais de quem desconhece o método mas parece um sonho ver a solução para um complexo que carrega. Contei até que o PAM tinha feito depilação a laser entre as sobrancelhas e nos mamilos, não para ficar como uma menina, mas para ficarem menos espessos e menos pretos, deixar de ter o ar de mato. Na verdade eu cheguei a dizer para não fazer os mamilos, mas numa duas sessões tive de reconhecer que ficou com muito melhor aspecto e continua homem, com pêlos, mas sem ar de alcatifa.

Falava normalmente com o meu primo quando a conversa foi interrompida:

- Era o que me faltava fazeres depilação, punha-te fora de casa! - disse a mãe.

Quanto preconceito e ignorância.

Nem sabia que estávamos a ser ouvidos. Humilhado, o meu primo deu com os olhos no chão, o que me matou de pena. Eu, tive de engolir a estupidez, reforcei a minha opinião (não dá mesmo para falar com esta pessoa), outro primo ficou em silêncio constrangido e foi isto. Ficámos ali largados ao silêncio da estupidez, mantendo-me calada para não criar dramas familiares, olhando para o meu primo que depois encolheu os ombros e me sorriu, tentando fingir que não se tinha importado com aquele momento de merda e de humilhação.

É triste que não respeitem os nossos desejos para coisas básicas que não trazem qualquer mal ou consequência grave. Quanto preconceito e ignorância! Parece que anunciou que iria deixar de estudar ou ou foi apanhado a injectar heroína nos braços (verdadeiros motivos para querer despejar e assustar um filho para fora de casa).

Esta porcaria, o som daquela frase por causa de um não-motivo está-me a fazer eco na cabeça há dois dias. Não me sai do pensamento. Sempre achei uns merdas as pessoas, particularmente pais, que para se fazerem ver, ameaçam com a porta da rua. Um deixas de viver comigo e viras sem-abrigo! ou um não te pago mais nada!, como se o filho fosse delinquente. Só faltou ouvir se fazes depilação morreste para mim!

Quanto preconceito e ignorância.

Não houve ali um papel de maturidade que se espera de um adulto. Não houve ali qualquer ponderação de procurar conversar mais tarde, de pensar que lhe fazia confusão um homem fazer depilação mas tentar compreender a vontade, olhar aos motivos em vez de se centrar no umbigo da intolerância eu é que mando e é assim que tem de ser.

Sempre achei (e acharei) uns merdas os pais que acenam a porta da rua para se fazerem compreender. A vida dá-lhes a opção de conversar e tentar compreender e preferem antes agarrar no martelo da ameaça, o método fácil e egoísta. O ponho-te na rua é tão mau que até tenho dificuldade de escrever este texto e explicar as emoções negativas que provoca em mim. É de mau carácter, é de um merdas.

Esta forma de acção parental lembra-me um grupo que também rejeita o diálogo e a liberdade, querendo fazer vingar as suas opiniões e vontades pelo método da força: o Estado Islámico.

Se algum dia vier a ser mãe, espero nunca usar o argumento do ponho-te fora de casa. É reles, baixo, ordinário e próprio de quem não tem vocação para o diálogo, a compreensão e a paternidade. Até porque odeio bluffs, é coisa de gente fraca. Só os fracos e os merdas dizem coisas para provocar medo sem sombra de vir a cumprir as afirmações.

Conheço quem tenha ouvido merdas dessas repetidamente de um pai. Acabou por um dia começar a trabalhar, sair de casa, mas nunca esqueceu as ameaças e viverá para sempre com os convites da porta da rua na sua memória. Era um pai "porreiro", daqueles, os merdas.

Sei bem que posso arranjar problemas por ter escrito este texto, mas talvez o risco valha a pena se fizer algum pai ou mãe pensar nas emoções negativas que provocam a um filho quando os ameaçam em pôr fora de casa. Por aí, quais são as memórias que querem deixar aos vossos filhos?




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© A Maçã de Eva

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